
O discurso mudo e falado de um grande diretor
Por Marcelo Balbino
Após
60 anos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o filme O
Grande Ditador, de Charles Chaplin, volta em cartaz em
São Paulo, no início da primavera de 2005. Lançado
em 1940, com a censura no encalço o filme, sustenta
diversas marcas históricas. Foi o primeiro filme “falado”
de Chaplin, que relutava em aceitar o avanço do som,
desde o seu surgimento em 1927, com o Cantor de Jazz,
de Alan Crosland. Curiosamente, o assunto deste último
título citado também destaca questões
sobre o conflito de gerações de imigrantes judeus.
Outras comparações não faltam, especialmente
entre Hitler e Chaplin. Vão desde o ano de nascimento
de ambos, 1889 - passando pelo famoso bigode, ou mesmo a fama
de ditador -, tanto do líder armado, como a do diretor
durante as filmagens.
O
argumento de O Grande Ditador traz Chaplin em dois
papéis: o líder Adenoid Hynkel (que satiriza
Hitler) e o humilde barbeiro judeu, sem nome e memória.
Em cena, surge o desfile de quadros irônicos e inesquecíveis,
que vão desde os gestuais e uniformes militares, até
o uso de armas, palanques e autoridades. Também entram
na dança a mímica, as gags, e toda a linguagem
sem voz que Chaplin aperfeiçoou ao longo dos anos e
usou como ninguém. Tanto que muitos arriscam dizer
que os melhores momentos do primeiro filme totalmente falado
de Chaplin, ironicamente são aqueles sem fala. Como
a cena inesquecível em que o ditador brinca com um
mundo inflável, em forma de balão, no paradoxo
entre a pureza infantil e o domínio e poder. Ao ritmo
de uma guerra falida, o diretor nos convida a chutar o traseiro
dos opressores em nome da liberdade, além de brincar
com os seus soldadinhos de chumbo da guerra.
Quando desafia o poder, o autor esvazia a idéia de
liderança, guerra e opressão. O gosto é
de revanche, acerto de contas do cineasta que não esquecia
seu passado humilde. “Nem a fama nem a prosperidade
jamais me tirarão da consciência a idéia
da derrota e o medo da pobreza, as palavras ofensivas, as
privações cruéis que sofri em Londres
quando jovem”, lamentava Chaplin.
No filme, dava até para prever que em dado momento
o ditador e o barbeiro iriam inverter seus papéis.
E quando isso ocorre é a hora de lavar a alma, dar
voz cômica contra o poder. Hora em que o barbeiro, sem
nome e memória sobe ao palanque com o seu coração.
Mas com o disfarce do ditador. Sob essa “carapuça”,
o judeu incita a revolução dos humildes e convoca
a paz e a justiça. É o oprimido exorcizando
o poder e apontando toda a ironia que enxerga atrás
do uniforme e da patente. E assim, com o sorriso, esperança
e humor, continua a desmontar todos os ideais da iminência
da guerra.
A
capacidade do humor, usada como artilharia pesada contra o
poder absoluto e incontestável é o que realmente
pesa no filme. Até porque ironizar uma situação
tão trágica, concretizada nos campos de concentração,
anos depois, com milhões de mortes e a crueldade da
guerra pode ser algo perigoso demais. O próprio Chaplin
declarou mais tarde “Se eu tivesse conhecido os verdadeiros
horrores dos campos de concentração alemães,
jamais poderia ter realizado um filme como O Grande Ditador
– a ridicularização da loucura homicida
dos nazistas. O que eu quis foi mostrar o absurdo do discurso
a favor das raças de sangue puro”.
Para fechar a obra, já que o som foi aceito, o autor
inclui seis minutos de discurso, bem ao final do filme. A
idéia inicial era promover uma espécie de dança
da paz, com a realização de um baile entre as
tropas rivais. Mas, com tempo e orçamento curto, a
escolha direta das palavras imprimiram formato cortante e
humanitário, como se a voz e o ideal conseguissem parar
a guerra.
Curiosamente,
o nome presente no discurso, Hannah (moça que faz o
par romântico do barbeiro, papel vivido pela atriz Paulette
Goddard) é o mesmo da mãe de Charles Chaplin.
Quem sabe, além do protesto contra a guerra e as desigualdades,
não fosse também esta a influência esperançosa
e maternal? Voz contra toda desigualdade e sofrimento da vida.
Mais um foco de luz do passado triste, que se ampliava como
esperança e luta, acima das guerras, para ficar em
algum lugar além do arco-íris.
Marcelo Balbino é jornalista, amante do cinema e literatura,
autor dos livros Entre o Sonho e a Realidade e
Espelho, ambos pela Scortecci Editora.
• Leia o último discurso do filme
Ficha Técnica
O Grande Ditador
Direção: Charles Chaplin
Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Jack Oakie,
Reginald Gardiner, Henry Daniell, Billy Gilbert e Maurice
Moscovich.
Nacionalidade: Estados Unidos, 1940
Duração: 124 min
Gênero: Comédia
Classificação: Livre
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